Por Alexandre, CEO da Arkad.
A duplicata está deixando o papel para virar um título 100% digital e registrado. Entenda o cronograma e o que isso significa para o seu acesso a crédito.
Se a sua empresa antecipa recebíveis, ou pretende antecipar, uma mudança que vem acontecendo de forma silenciosa no Banco Central vai mexer com a sua operação nos próximos anos.
O nome dela é duplicata escritural, e vale entender desde já.
Do papel para o registro digital:
A duplicata é um dos títulos de crédito mais usados no Brasil. Quando uma empresa vende a prazo, ela pode emitir uma duplicata, que é o documento que comprova aquele valor a receber. Durante décadas, isso viveu no papel, com carimbo e arquivo físico, o que abria espaço para extravio, duplicidade e até fraude, quando o mesmo recebível era oferecido como garantia em dois lugares diferentes.
A duplicata escritural leva tudo para o digital. Em vez de papel, o título passa a nascer e a circular registrado em uma entidade autorizada pelo Banco Central. Hoje são quatro registradoras habilitadas: B3, CERC, Núclea e Grafeno. O registro liga a duplicata à nota fiscal e cria uma trava, deixando aquele recebível rastreável e único.
O cronograma já começou!
A fase de produção assistida, em que as empresas aderem de forma opcional para testar os fluxos, começou no segundo semestre de 2026. A obrigatoriedade vem escalonada a partir de 2027, primeiro para as empresas de grande porte e depois para médias e pequenas, ao longo de 2027 e 2028. O calendário ainda pode ter ajustes do regulador, então vale acompanhar.
O ponto que importa é este: a exigência está ligada às operações de crédito com garantia de recebíveis. Quando ela valer para o seu porte, uma duplicata que não estiver registrada não poderá ser usada como garantia em uma antecipação.
O que muda para quem antecipa recebíveis?
A garantia fica mais confiável, porque um recebível registrado é difícil de fraudar e fácil de verificar, e isso reduz o risco de quem financia. Com risco menor, o custo do crédito tende a cair, já que boa parte do spread que o tomador paga é, no fundo, o preço da incerteza.
Tem ainda um efeito que costuma passar batido. O recebível registrado dá portabilidade ao tomador, que passa a poder buscar crédito em qualquer instituição, sem ficar preso a quem originou a operação.
Por que isso importa para o mercado?
No agregado, o efeito é grande. O Banco Central estima o potencial desse mercado de recebíveis na casa dos trilhões de reais. E ele se soma a um movimento que já vinha forte: a indústria de FIDC no Brasil deve cruzar a marca de R$ 1 trilhão sob gestão em 2026, puxada pela busca das empresas por alternativas ao crédito bancário tradicional. Mais recebível registrado significa mais matéria-prima de qualidade para esse mercado crescer.
Aqui vai a parte que me interessa como quem opera crédito todos os dias. Quando a régua de qualidade da garantia sobe para o mercado inteiro, o diferencial deixa de estar só no acesso ao recebível e passa para a leitura desse recebível: entender o sacado, o prazo, a concentração e o risco real por trás daquele papel. A escrituração organiza a informação. Interpretar essa informação continua sendo trabalho humano, de quem analisa caso a caso.
Uma boa hora para conversar!
Na Arkad, a gente já estruturava antecipação de recebíveis com esse cuidado antes da mudança chegar, e enxerga a duplicata escritural como um avanço para o mercado todo. Se você tem recebíveis e quer entender como essa nova lógica afeta o seu acesso a capital, vale trocar uma ideia.
Seguimos escrevendo por aqui sobre o que muda no crédito estruturado conforme a regulação avança.